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Este blog não tem grandes pretensões! É apenas o meu espaço para dizer o que penso, sem que ninguém me interrompa antes que eu conclua minhas idéias. ...risos... Seja bem-vindo!

Contos

A Origem das Revespécies



Você já deve ter quebrado muito a cabeça pra responder aquela velha pergunta sobre o ovo e a galinha... Ora, convenhamos, desde que os cientistas anunciaram o parentesco entre a dita cuja e os dinossauros, não é preciso ser nenhum Charles Darwin pra matar essa charada...
Por um capricho da natureza, ficou decidido que os dinossauros pulariam de grandalhões para a categoria peso-pena, passariam a acordar com as galinhas e seriam bichos muito bons de bico. Daí, foi só uma tiranossauro botar um ovo com um pintinho dentro, para dar início à era das galináceas no planeta. Pronto, o ovo veio primeiro!
E já que estamos falando sobre as transformações no reino animal, é bom lembrar que a evolução não é privilégio apenas das cocoriquentas. Tempos depois de um cavalo amarelo-malhado ter tomado chá de trepadeira e ficado com as folhas entaladas na garganta, transformou-se numa girafa. Quando um camundongo gigante cansou de levar seus filhos a tiracolo e amarrou uma bolsa na barriga, virou um canguru. Já a gelatina, que teve a sorte de ser resgatada do mar Morto por um salva-vidas, ah, virou uma água-viva!
E os reveses nas espécies não param por aí. Tem exemplo de revespécie pra dar e vender. Veja só:
Quem já era devagar quase parando virou preguiça.

Quem tinha samba no pé, uma cuíca.
Virou solitária quem vivia jogada às traças.

Um tremendo furão, quem nunca dava o ar da graça.

Quem era bicho-papão ficou barrigudo.

Quem era cheio de pneuzinhos, borrachudo.
Quem não conseguiu pegar jacaré virou mergulhão.

Quem era nervosinho pacas, um zangão!
Quem gostava de madeira virou bicho-carpinteiro.

Quem dirigia mal pra burro, barbeiro!

Quem não comprava no atacado, virou varejeira.

Quem lavava roupa suja em casa, lavadeira.
Virou quero-quero quem era pidão.

E serelepe, um mexilhão.

Virou maria-fedida quem vivia cheia de craca.

Quem não entrava em barca furada, uma fragata.
O calombo na cachola virou galo.

E quem vivia enrabichado, namorado.
Virou beija-flor quem namorou a rosa no quintal.

Quem pisou na concha acústica, um coral.
Virou truta aquele camarada, grande amigo.

Quem soltava fogo pelas ventas, maçarico.
Virou centopeia o cheio de dedos.

Mas quem vivia pregado continuou percevejo!

Maria Amália Camargo, autora deste conto, é formada em Letras. Escreve no blog Na Contramão do Pelo Contrário: Historietas Sem Pé Nem Cabeça.



A gata apaixonada

Quando perguntam como é que eu consegui sair com a Carla, eu respondo que foi por causa do Aldemir Martins. O pintor famoso.




Eu estava, tranqüilo, estudando. Juro. Lá pelas 3 da tarde o telefone tocou. Era ela, a vizinha da casa 3.



A mãe morreu há uns quatro anos. O pai é superciumento, não a deixa satir de casa nunca.



– Oi, Rodrigo... Você tem um gato grande, malhado?



– Tenho. O nome dele é Sorvete.



– Sorvete?



– Quando a gente encosta a mão, ele se derrete todo.



– Ele briga com a minha gata, a Tati. Já aconteceu várias vezes. Acho que é ciúme.



– De outro gato?



– Não. De um quadro. Uma pintura. Do Aldemir Martins.



Dez minutos depois eu estava na sala da casa dela. Só nós dois.



– Você vai ver – ela disse.



– É sempre na mesma hora. Já ouviu falar do Aldemir Martins?



– Já. É um pintor famoso pra caramba. Mora aqui em São Paulo.



– Morava. Morreu há pouco tempo. Minha mãe era apaixonada pela pintura dele. Ele ilustrava livros, revistas, jornais... Pintava cangaceiros, galos, passarinhos, peixes...



– Tô sabendo. Desenhava até rótulos de maionese, de vinho...



– Minha mãe comprava tudo que podia. A gente comia em pratos desenhados por ele, tinha lençóis, tapetes, cortina de banheiro...



Carla me levou pra um canto da sala. Em cima de uma imitação de lareira, havia uma tela do Aldemir Martins, pequena, com o desenho de um gato. Um gato gordo, vermelho e azul, um focinho enorme, mostrando as garras, sedutor, os olhos verdes calmos, hipnóticos.



– Minha mãe adorava esse quadro.



Então ela me puxou pra trás de uma cortina pesada, que cobria a vidraça que dava pro jardim.



Tati entrou na sala. Pulou pro beiral da falsa lareira e parou em frente ao quadro, olhando pro gato pintado. Ficamos assim uns 20 minutos, escondidos, calados. Até que ele apareceu. O velho Sorvete. O gato mais descolado do pedaço. Veio gingando, passou entre os móveis, parou na frente da lareira, olhou pro alto e não gostou nada do que viu.



Carla segurou no meu braço.



Sorvete pulou pro beiral.



Briga de gato é mais rápido que videogame. Tati pulou, atravessou uma janela aberta e fugiu pro jardim, com o Sorvete atrás.



– Minha mãe dizia que um artista é capaz de recriar a vida. Se Deus existe, com certeza é um artista. Mas acho que você vai ter de trancar o Sorvete em casa, Rodrigo. Não gostei daquilo.



– Não, Carla. A gente encontra outro jeito. Pra mim as pessoas, os bichos, qualquer coisa que se mexa... têm de ter liberdade. Têm de ter uma janela aberta.



– Mas o Sorvete é meio selvagem...



– Isso. É assim que eu gosto dele. Eu também sou meio selvagem. Sabe o que eu faço? Eu como o tomate inteiro. Eu não fico esperando a minha mãe partir e colocar na salada!



Ela riu. Não sei de onde eu tirei essa história do tomate. Aí me empolguei, e ia dar mais exemplos de como eu era selvagem, mas a cortina se abriu de repente e o pai dela apareceu.



O cara ficou nervoso, quase chamou a polícia, mas depois a gente explicou, ele se arrependeu e acabou até deixando a filha sair comigo.



Eu e a Carla estamos namorando. Juro.



Conto de Ivan Jaf




Aconteceu na caatinga


Era meio-dia e a caatinga brilhava à luz incandescente do Sol. O pequeno Calango deslizou rápido sobre o solo seco, cheio de gravetos e pedras, parando na frente do majestoso Mandacaru, que apontava para o céu seus espinhos, os grandes braços abertos em cruz.




– Mandacaru! Mandacaru! Eu ouvi os homens conversando lá adiante e eles estavam dizendo que, como a caatinga está muito seca e cor de cinza, vão trazer do estrangeiro umas árvores que ficam sempre verdes quando crescem e estão sempre cheias de folhas.



– Mas que novidade é essa? – falou a Jurema.



– Coisa de gente besta – disse o Cardeiro, fazendo um muxoxo irritado e atirando espinhos para todo lado.



– Eu é que não acredito nessas novidades – sussurrou o pequeno e tímido Preá.



A velha Cobra, cheia de escamas de vidro e da idade do mundo, só fez balançar a cabeça de um lado para o outro e, como se achasse que não valia a pena falar, ficou em silêncio.



E no outro dia, bem cedinho, os homens já haviam plantado centenas de arvorezinhas muito agitadas, serelepes e faceiras, que falavam todas ao mesmo tempo na língua lá delas, reclamando de tudo: do Sol, da poeira, dos bichos e das plantas nativas, que elas achavam pobres, feias e espinhentas. Enquanto falavam, farfalhavam e balançavam os pequenos galhos, que iam crescendo, ganhando folhas e ficando cada vez mais fortes.



Enquanto isso, as plantas da caatinga, acostumadas a viver com pouca água, começaram a notar que essa água estava cada vez mais difícil de encontrar. As raízes do Mandacaru, da Jurema e do Cardeiro cavavam, cavavam e só encontravam a terra seca e esturricada.



O Calango então se reuniu com os outros bichos e plantas para encontrar uma solução. E foi a velha Cobra quem matou a charada:



– Quem está causando a seca são essas plantinhas importadas e metidas a besta! Eu me arrastei por debaixo da terra e vi o que elas fazem: bebem toda a nossa água e não deixam nada para a gente.



– Oxente! – gritou o Calango. – Então vou contar isso aos homens e pedir uma solução.



Mas logo o Calango voltou, triste e decepcionado.



– Os homens não me deram atenção – disse. – Falaram que eu não tenho instrução, não fiz universidade e que eu estou atrapalhando o progresso da caatinga.



E todos os bichos e plantas ficaram tristes, mas estavam com tanta sede que nem sequer puderam chorar: não havia água para fabricar as lágrimas. Por muitos dias ficaram assim e quando estavam à beira da morte houve um movimento: era o Preá, que levantou o narizinho, farejou o ar e, esquecendo a timidez, gritou:



– Estou sentindo cheiro de água!



– É mesmo! – gritaram todos.



– O que será que aconteceu? – perguntou a Jurema.



– Eu vou ver o que foi – e o Calango saiu veloz, espalhando poeira para todos os lados.



O Mandacaru estirou os braços, espreguiçou-se e sorriu:



– Estou recebendo água de novo! Hum... É muito bom! Mas vejam! O Calango está de volta com novidades!



E espichando meio palmo de língua de fora, morto de cansado pela carreira, o Calango contou tudo.



– As pequenas bandidas verdes, depois de beber quase toda a água da caatinga, estavam ameaçando a água dos rios e dos açudes perto das cidades. Os homens então viram o perigo e deram fim a todas elas. Estamos salvos!



E todos ficaram alegres, sentindo a água subir pelas raízes. Olharam para o céu azul da caatinga, aquele céu claro, o Sol brilhante, olharam uns para os outros e viram que eram irmãos, na mesma natureza, no mesmo tempo, na mesma Terra.



E a velha Cobra, desenroscando-se toda lentamente, piscou o olho e concluiu:



– É como dizia minha avó: cada macaco no seu galho!



Conto de Clotilde Tavares

Aprendizagem

– Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?


– Hã?

– Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?

– Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.

A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.

– Todo dia, mãe?

– É, só que a gente não repara.

– Por quê?

– Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?

A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.

– Você é muito ocupada, não é, mãe?

– Hã?

– Nada, não.

A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.

Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto.

"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana!

Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis.

– Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?

– Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura?

Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder.

A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda.

– Mãe!

– O que foi?

– É que eu estava aqui pensando.

– Pensando o quê?

Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.

– Vai, fala logo.

– Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu?

– Não, não entendi.

Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:

– Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?

– Ai, meu Deus!

Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca.

Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela:

– Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu?

E com um carinho:

– Foi minha mãe que me ensinou.






Flávio Carneiro, autor deste conto, é roteirista, ensaísta e professor de Literatura. Tem 11 livros publicados, dentre eles, A Distância das Coisas (Editora SM), vencedor do III Prêmio Barco a Vapor.

 
Folhas Secas

Eu estava dando uma aula de Matemática e todos os alunos acompanhavam atentamente.







Todos?






Quase. Carolina equilibrava o apontador na ponta da régua, Lucas recolhia as borrachas dos vizinhos e construía um prédio, Renata conferia as canetas e os lápis do seu estojo vermelhíssimo e Hélder olhava para o pátio.






O pátio? O que acontecia no pátio?






Após o recreio, dona Natália varria calmamente as folhas secas e amontoava e guardava tudo dentro de um enorme saco plástico azul. Terminando o varre-varre, dona Natália amarrou a boca do saco plástico e estacionou aquele bafuá de folhas secas perto do portão. Hélder observava atentamente. E eu observava a observação de Hélder - sem descuidar


da minha aula de Matemática. De repente, Hélder foi arregalando os olhos e franzindo a testa.






Qual o motivo do espanto?






Hélder percebeu alguma coisa no meio das folhas movendo-se deseperadamente, com aflição, sufoco, falta de ar. Hélder buscava interpretações para a cena, analisava possibilidades, mas o perfil do passarinho já se delineava na transparência azul do plástico.


Um pássaro novo caiu do ninho e foi confundido com as folhas secas e foi varrido e agora lutava pela liberdade.






- Ele tá preso!






O grito de Hélder interrompeu o final da multiplicação de 15 por 127. Todos os alunos olharam para o pátio. E todos nós concordamos, sem palavras: o bico do passarinho tentava romper aquela estranha pele azul. Hélder saiu da sala e nós fomos atrás. E antes


que eu pudesse pronunciar a primeira sílaba da palavra “calma”, o saco plástico simplesmente explodiu, as folhas voaram e as crianças pularam de alegria.






Alguns alunos dizem que havia dois passarinhos presos. Outros viram três passarinhos voando felizes e agradecidos. Lucas diz que era um beija-flor. Renata insiste que era uma cigarra. Eu, sinceramente, só vi folhas secas voando.






Para concluir esta inesquecível aula de Matemática, pegamos vassouras, pás e sacos plásticos e fomos varrer novamente o pátio.


Conto de Francisco Marques (Chico dos Bonecos)



















 
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