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Este blog não tem grandes pretensões! É apenas o meu espaço para dizer o que penso, sem que ninguém me interrompa antes que eu conclua minhas idéias. ...risos... Seja bem-vindo!

Lendas

Lendas do Brasil

O Boto Cor de Rosa



Acredita-se que nas noites de lua cheia próximas da comemoração da festa junina o boto cor-de-rosa sai do Rio Amazonas se transforma em metade homem e continua em condição de boto na outra metade do corpo.
Muito atraente e com um belo porte físico, o boto sai pelas comunidades próximas ao rio, encanta e seduz a moça mais bonita. O belo rapaz usa sempre um chapéu para esconder sua condição de metade homem e metade boto.
O belo rapaz leva as moças até a margem do rio e as engravida. Ao engravidá-las, o rapaz volta a ser um boto cor-de-rosa e a moça volta a sua comunidade grávida.
Por esse fato, as pessoas que vivem em comunidades próximas aos rios onde habitam os botos cor-de-rosa o comem acreditando que ficarão enfeitiçadas por ele pelo resto da vida. Acredita-se também que algumas pessoas que comem a carne do boto ficam loucas.

A lenda do boitatá




A lenda do boitatá foi criada pelo padre José de Anchieta, onde descreveu o boitatá como uma gigantesca cobra de fogo ondulada, com olhos que parecem dois faróis, couro transparente, que cintila nas noites em que aparece deslizando nas campinas e na beira dos rios. Diz a lenda também que o boitatá pode se transformar em uma tora em brasa, para assim queimar e punir quem coloca fogo nas matas. Diz a lenda que quem se depara com o boitatá geralmente fica cego, pode morrer ou até ficar louco . Assim, quando alguém se encontrar com o boitatá deve ficar parado, sem respirar e de olhos bem fechados. Como a maioria das lendas e crendices populares que são passadas de geração em geração através do “ouvir e contar”, a lenda do boitatá sofreu algumas modificações, sendo que em muitas partes do Brasil a lenda é contada de forma diferente. Em Santa Catarina, por exemplo, o boitatá é descrito como um touro de "pata como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo".
A Iara




A Iara é uma lenda do folclore brasileiro. Ela é uma linda sereia que vive no rio Amazonas, sua pele é morena, possui cabelos longos, negros e olhos castanhos.


A Iara costuma tomar banho nos rios e cantar uma melodia irresistível, desta forma os homens que a vêem não conseguem resistir aos seus desejos e pulam dentro do rio. Ela tem o poder de cegar quem a admira e levar para o fundo do rio qualquer homem que ela desejar se casar.


Os índios acreditam tanto no poder da Iara que evitam passar perto dos lagos ao entardecer.


Segundo a lenda, Iara era uma índia guerreira, a melhor da tribo e recebia muitos elogios do seu pai que era pajé.


Os irmãos de Iara tinham muita inveja, resolveram matá-la à noite enquanto dormia. Iara que possuía um ouvido bastante aguçado, os escutou e os matou.


Com medo da reação de seu pai, Iara fugiu. Seu pai, o pajé da tribo, realizou uma busca implacável e conseguiu encontrá-la, como punição pelas mortes a jogou no encontro dos Rios Negro e Solimões, alguns peixes levaram a moça até a superfície e a transformaram em uma linda sereia.




O Saci-Pererê




O Saci-Pererê é uma lenda do folclore brasileiro e originou-se entre as tribos indígenas do sul do Brasil.


O saci possui apenas uma perna, usa um gorro vermelho e sempre está com um cachimbo na boca.


Inicialmente, o saci era retratado como um curumim endiabrado, com duas pernas, cor morena, além de possuir um rabo típico.


Com a influência da mitologia africana, o saci se transformou em um negrinho que perdeu a perna lutando capoeira, além disso, herdou o pito, uma espécie de cachimbo e ganhou da mitologia européia, um gorrinho vermelho.


A principal característica do saci é a travessura, muito brincalhão ele se diverte com os animais e com as pessoas, muito moleque ele acaba causando transtornos como: fazer o feijão queimar, esconder objetos, jogar os dedais das costureiras em buracos e etc.


Segundo a lenda, o Saci está nos redemoinhos de vento e pode ser capturado jogando uma peneira sobre os redemoinhos.


Após a captura, deve-se retirar o capuz da criatura para garantir sua obediência e prendê-lo em uma garrafa.


Diz também a lenda, que os Sacis nascem em brotos de bambus, nestes eles vivem sete anos e após esse tempo, vivem mais setenta e sete para atentar a vida dos humanos e animais, depois morrem e viram um cogumelo venenoso ou uma orelha de pau.



Negrinho do Pastoreio




É uma das lendas mais populares do Brasil, principalmente na região sul. Diz a lenda que um fazendeiro ordenou que um menino, seu escravo, fosse pastorear seus cavalos. Após um tempo, o menino voltou e o fazendeiro percebeu que faltava um cavalo: o baio. Como castigo o fazendeiro chicoteou o menino até sangrar e mandou que ele fosse procurar o cavalo que faltava. O garoto conseguiu achar baio, porém não conseguiu capturá-lo, então, o fazendeiro o castigou mais ainda, prendendo-o em um formigueiro. No dia seguinte, o fazendeiro se deparou com o menino sem nenhum ferimento, a virgem Maria do seu lado e o cavalo baio. Após o fazendeiro ter pedido perdão, o menino nada respondeu, montou em baio e saiu a galope.

 
A mula-sem-cabeça




A mula-sem-cabeça é uma lenda do folclore brasileiro, a sua origem é desconhecida, mas bastante evidenciada em todo Brasil.


A mula é literalmente uma mula sem cabeça e que solta fogo pelo pescoço, local onde deveria estar sua cabeça, possui em seus cascos, ferraduras que são de prata ou de aço e apresentam coloração marrom ou preta.


Segundo alguns pesquisadores, apesar de ter origem desconhecida, a lenda fez parte da cultura da população que vivia sobre o domínio da Igreja Católica.


Segundo a lenda, qualquer mulher que namorasse um padre seria transformada em um monstro, desta forma as mulheres deveriam ver os padres como uma espécie de “santo” e não como homem, se cometessem qualquer pecado com o pensamento em um padre, acabariam se transformando em mula sem cabeça.


Segundo a lenda, o encanto somente pode ser quebrado se alguém tirar o freio de ferro que a mula sem cabeça carrega, assim surgirá uma mulher arrependida pelos seus “pecados”.


A lenda da vitória-régia




A lenda da vitória-régia é muito popular no Brasil, principalmente na região Norte. Diz a lenda que a Lua era um deus que namorava as mais lindas jovens índias e sempre que se escondia, escolhia e levava algumas moças consigo. Em uma aldeia indígena, havia uma linda jovem, a guerreira Naiá, que sonhava com a Lua e mal podia esperar o dia em que o deus iria chamá-la.


Os índios mais experientes alertavam Naiá dizendo que quando a Lua levava uma moça, essa jovem deixava a forma humana e virava uma estrela no céu. No entanto a jovem não se importava, já que era apaixonada pela Lua. Essa paixão virou obsessão em um momento onde Naiá não mais queria comer nem beber nada, só admirar a Lua.


Numa noite em que o luar estava muito bonito, a moça chegou à beira de um lago, viu a lua refletida no meio das águas e acreditou que o deus havia descido do céu para se banhar ali. Assim, a moça se atirou no lago em direção à imagem da Lua. Quando percebeu que aquilo fora uma ilusão, tentou voltar, porém não conseguiu e morreu afogada.


Comovido pela situação, o deus Lua resolveu transformar a jovem em uma estrela diferente de todas as outras: uma estrela das águas – Vitória-régia. Por esse motivo, as flores perfumadas e brancas dessa planta só abrem no período da noite.


A Cuca








A Cuca é sem dúvida, um dos principais seres do folclore brasileiro, principalmente pelo fato do personagem ter sido descrito por Monteiro Lobato em seus livros infantis e em sua adaptação para a televisão, o Sítio do Pica-Pau Amarelo. A Cuca se originou através de outra lenda: a Coca, uma tradição trazida para o Brasil na época da colonização.


Segundo a lenda, a Cuca é uma velha feia que tem forma de jacaré e que rouba as crianças desobedientes, sendo usado por muitas vezes como uma forma de fazer medo em crianças que não querem dormir.
O bicho-papão




O bicho-papão é uma figura fictícia mundialmente conhecida. É uma das maneiras mais tradicionais que os pais ou responsáveis utilizam para colocar medo em uma criança, no sentido de associar esse monstro fictício à contradição ou desobediência da criança em relação à ordem ou conselho do adulto.


Desde a época das Cruzadas, a imagem de um ser abominável já era utilizada para gerar medo nas crianças. Os muçulmanos projetavam esta figura no rei Ricardo, Coração de Leão, afirmando que caso as crianças não se comportassem da forma esperada, seriam levadas escravas pelo melek-ric (bicho-papão): “Porta-te bem senão o melek-ric vem buscar-te”.


A imagem do bicho-papão possui variações de acordo com a região. No Brasil e em Portugal, é utilizado o termo “bicho-papão”. Nos Países Baixos, o monstro leva o nome de Zwart Piet (Pedro negro), que possui a tarefa de pegar as crianças malvadas ou desobedientes e jogá-las no Mar Negro ou levá-las para a Espanha. Em Luxemburgo, o bicho-papão (Housecker) é um indivíduo que coloca as crianças no saco e fica batendo em suas nádegas com uma pequena vara de madeira.


Segundo a tradição popular, o bicho-papão se esconde no quarto das crianças mal educadas, nos armários, nas gavetas e debaixo da cama para assustá-las no meio da noite. Outro tipo de bicho-papão surge nas noites sem luar e coloca as crianças mentirosas em um saco pra fazer sabão. Quando uma criança faz algo errado, ela deve pedir desculpas, caso contrário, segundo a lenda, receberá uma visita do monstro.




CONTOS AFRICANOS




O Porco e o Milhafre



O Porco e o Milhafre eram dois inseparáveis amigos. O porco invejava as asas do Milhafre e insistia contínuamente com o amigo para que lhe arranjasse umas iguais para voar também.


O Milhafre dispôs-se a fázer-lhe a vontade. Conseguiu arranjar penas de outra ave e, com cera, colou-as nos ombros e nas pernas do seu amigo Porco. Este ficou radiante e começou a voar ao lado do seu amigo Milhafre.


Quis acompanhá-lo até às grandes alturas, mas a cera começou a derreter-se com o calor e as penas foram caindo uma a uma. À medida que as penas se despegavam, ía o porco descendo, contrariado. Quando as penas acabaram de se soltar, o porco caiu e bateu no chão com o focinho. E com tanta força bateu, que este, ficou achatado.


Zangou-se o Porco com o Milhafre dizendo que tinha querido matá-lo, porque grudara mal as asas.


Desde essa ocasião deixou de ser amigo do Milhafre e, quando o vê pairar no alto, dá um grunhido e olha para ele desconfiado. E aqui está a razão porque o Porco tem o focinho achatado e nunca mais quis voar.






O Leão e o Coelho




O Leão gostava de uma rapariga muito bonita. Decidido a casar, foi falar com os pais dela para obter o consentimento.


Os pais concordaram com o namoro, mas puseram uma condição ao Rei da Selva: que lhes trouxesse dois coelhinhos. O Leão aceitou.


Não tardou o Leão a encontrar o que pretendia - dois daqueles animaizinhos que estavam sós. Meteu-os dentro de um saco e dirigiu-se imediatamente para casa dos futuros sogros.


No caminho encontrou o Coelho, e pediu-lhe o acompanhasse para o ajudar a fazer a entrega do dote. O das grandes orelhas acedeu ao convite. Durante a viagem, o Coelho, animal esperto e muito curioso, resolveu averiguar o que o Rei dos animais levava no saco. Serviu-se então de um truque, fazendo um pedido:


-Senhor Leão, deixe-me ir fazer necessidades.


-Vai lá!


O Coelho aproveitou-se da ocasião e levou o saco consigo. Ficou muito espantado, quando viu os seus dois filhos lá dentro.


Decidiu vingar-se. Tirou os dois coelhinhos e encheu o saco com um enxame de abelhas. Chegados a casa dos futuros sogros do Leão, este disse ao Coelho: -Amigo Coelho, podias sair por um bocado, pois queria tratar de uns assuntos particulares com estes senhores.


-Com certeza, senhor Leão, eu saio, mas não será melhor fechar bem a porta e até amarrá-la para que eu não oiça as vossas importantes conversas?


A sugestão foi bem aceite e o Coelho amarrou, por fora, a porta, com cordas muito fortes. O Rei da Selva, abriu o saco, para que os futuros sogros vissem os dois coelhinhos. As abelhas começaram à ferroada a todos os que se encontravam dentro da casa.


O Coelho regressou ao seu buraco, contente por ter salvo os filhos.

 
A Lagarta e o Sapo




O Sapo invejava à Lagarta a pele tão brilhante, tão luzidia. Dizia-lhe:


-Como é que tu fazes para andar sempre tão bonita? Não dás uma receita para que a minha pele, que é baça e rugosa, fique como a tua?


A Lagarta prontificou-se:


-Porque não? Ora ouve…


E começou a explicar:


-Deitas azeite numa panela que pões ao lume. Depois…


-Já sei! Já sei! - gritou logo o Sapo, retirando-se aos saltos, sem querer ouvir mais.


Assim que chegou a casa, deitou azeite numa panela, e logo que o azeite começou a ferver - zás! - atirou-se lá para dentro.


Escusado será dizer que a pele do Sapo, em vez de ficar brilhante e bonita como a da lagarta, ficou ainda mais feia do que era, toda cheia de bolhas.


Tudo devido à sua vaidade e impaciência.


A Hiena e a Tartaruga




A Tartaruga estava aflita porque se sentia perseguida pelo fogo do capim que estava a arder. Nisto passa a Hiena, e a Tartaruga pede-lhe:
- Amiga, tenha pena de mim, porque se o fogo me apanhar não sei o que hei-de fazer e não posso andar depressa.
A Hiena riu-se e foi-se embora.
Passado puco tempo chega o leopardo e a Tartaruga apresenta-lhe o mesmo pedido. O Leopardo agarra na Tartaruga, coloca-a no galho duma árvore, e depois de fogo passar veio tirá-la para o chão.
- Agora deixa-me agradecer-te pela bondade que tiveste comigo.
A Tartaruga, com as suas mãos e misturando a cinza com um pouco de água, aproximou-se do Leopardo e disse:
- Tu tens bom coração e também o teu corpo deve andar bonito.
Fez-lhe umas malhas negras em todo o corpo e este ficou bonito.
A Hiena encontrou o Leopardo e, admirada, perguntou:
- Amigo, onde encontraste esse bonito casaco?
O leopardo respondeu-lhe:
- Foi a minha amiga Tartaruga que mo deu.
A Hiena foi então ter com a Tartaruga e pediu-lhe que lhe desse um casaco igual. Como antigamente o Leopardo e a Hiena eram da mesma cor, a Tartaruga começou a dizer:
- Como tu és feia, também o teu casaco deve ser feio.
Com a cinza fez-lhe riscos feios em todo o corpo e a Hiena saiu toda envergonhada.


Contos Portugueses




OS TRÊS CONSELHOS



Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:


– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?


– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.


– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.


– Pois então venham de lá os conselhos.


Disse-lhe o patrão:


– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada real.


– Cá me fica para meu governo.


– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.


O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse o moço:


– Já me valeu o primeiro conselho.


Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:


– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.


E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:


– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de quatro anos!


Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há quem faça bem.


Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, 1883


 
O CALDO DE PEDRA



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:


– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:


– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.


Responderam-lhe:


– Sempre queremos ver isso.


Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:


– Se me emprestassem aí um pucarinho.


Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.


– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.


Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:


– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.


Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:


– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.


Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:


-Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.


A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.


Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:


– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...


Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:


– Ó senhor frade, então a pedra?


Respondeu o frade:


– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.


E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.


O BOI CARDIL



Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:


– Porque te ris? – perguntou o rei.


– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.


– Este não!


– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.


Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai, disse:


– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.


O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que guardava o boi Cardil. Ela começou logo:


– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.


O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.


A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.


Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe


– Então como vai o boi?


O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:


Senhor! pernas alvas


E corpo gentil,


Matar me fizeram


Nosso boi Cardil.


O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a aposta, e disse para o fidalgo:


– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha. E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto


O APRENDIZ DE MAGO



Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:


– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo, senão morres.


O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:


– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?


O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:


– Ai que agora é que estou perdido!


O cavalo branco falou-lhe:


– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.


Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:


– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.


O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:


– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.


O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:


– Deita fora o ramo.


Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:


– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.


Disse o cavalo branco:


– Bota fora a pedra.


Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:


– Corre, que meu tio agarra-nos.


– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.


Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.


– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.


– Pois eu sou capaz de ir lá.


Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o gigante dormindo.


A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:


– Porque choras tanto, minha filha?


– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.


O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.


OS DEZ ANÕEZINHOS DA TIA VERDE-ÁGUA



Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:


– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.


– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.


E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:


– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.


A velha respondeu-lhe:


– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?


– Ainda não; o que eu queria era vê-los.


– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que soo os dez anõezinhos.


A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.


 
SEMPRE NÃO



Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada: receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse:


– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?


Ela respondeu:


– Não!


O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:


– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?


Ela respondeu:


– Não.


Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:


– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?


Ela respondeu:


– Não.


Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas:


– Então fechais-me o vosso castelo?


Ela respondeu:


– Não.


– Recusais que pernoite aqui?


– Não.


Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o que lhe dizia ela foi sempre respondendo


– Não.


Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:


– Consentis que eu fique longe de vós?


Ela respondeu:


– Não.


– E que me retire do vosso quarto?


– Não.


O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não; mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter mão em si, perguntou agoniado:


– Mas onde foi isso cavaleiro?


O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:


– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.


O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.




O SARGENTO QUE FOI AO INFERNO



Havia numa terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe amizade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o sargento apaixonou-se por uma delas: ora o mercador era muito desconfiado e nunca deixava sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz ele mesmo lhe falou para se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vai, acontece ir uma peça muito linda no teatro, e como as filhas desejassem ver, pediram ao sargento, que só ele é que era capaz de apanhar licença do pai para as deixar ir ver. O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo:


– Deixo ir as minhas filhas com o senhor, e é com a condição, que quando der a última badalada da meia-noite hão-de estar aqui à porta.


Disseram todos que sim, e partiram.


Quase perto da meia-noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede daqui, pede dali, o certo é que já tinha dado a meia-noite, eles ainda longe de casa.


Assim que o rapaz bateu à porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:


– Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Pois trate já de arranjar as suas coisas que nem já esta noite me fica em casa.


– Oh senhor, então só por isto! E quando estava já para casar com sua filha!


O velho respondeu-lhe:


– Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa.


– Qual?


– Vá ao Inferno, e traga-me três anéis que o Diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e outro num olho.


O rapaz achou aquilo impossível; mas que remédio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: "Quem quiser alguma coisa para o Inferno, amanhã parte um mensageiro." Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei:


– Como é que você vai ao Inferno?


– Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura dele, e irei lá, dê por onde der.


– Pois bem, disse o rei, quando encontrares o Diabo, pergunta-lhe se ele sabe de um anel de muito valor que eu perdi, do que ainda tenho grande desgosto.


Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo anúncio. O rei também o mandou chamar:


– Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguém lhe acerta com o mal. Já que vais ao Inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura.


O rapaz partiu sempre à procura do Inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois caminhos, um com pegadas de gente, e o outro com pegadas de ovelhas. Pensou, e por fim seguiu pelo caminho das pegadas de gente; ao meio dele encontrou um ermitão, de barbas brancas, que rezava em umas camândulas muito grandes, e lhe disse:


– Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vai para o Inferno.


– Oh, senhor! E eu há tanto tempo que ando à procura dele!


O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão dele, e disse:


– Já que tens de ir ao Inferno, vai, mas sempre leva contigo estas contas, porque antes de lá chegar tens de passar um rio escuro, e há-de ser um pássaro que te há-de levar para o outro lado; e quando ele te quiser afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. Daqui em diante não sei mais o que te sucederá.


Assim aconteceu. Chegado ao Inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno vazio e escondeu-se dentro dele. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito velha e viu-o.


– O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza. O que veio cá fazer?


O rapaz contou tudo à mãe do Diabo; a velha teve pena dele, e disse-lhe:


– Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; ele está assistindo à morte do Padre Santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma. O rapaz pediu à velha se sabia do Diabo as perguntas de que trazia encomenda. Quando estavam nestas conversas chegou o Diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:


– Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu colo.


O Diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e arrancou-lhe um anel que tinha debaixo do braço. O Diabo mexeu-se desesperado, gritando:


– Isto o que é?


– Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedela em cima de ti. Estava a sonhar com aquele rei que perdeu o anel, e que nunca mais o tornou a achar.


– Pois é verdade esse sonho, respondeu o Diabo; está debaixo de uma laje ao pé do repuxo do jardim.


O Diabo tornou a ficar a dormir; a velha sorrateira arrancou-lhe o segundo anel. O Diabo tornou a acordar desesperado:


_ Tem paciência, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha daquele rei que nenhum médico sabe curar.


– Também é verdade; a doença dela é o sapo-sapão, que está metido no enxergão.


Tornou o Diabo a dormir. Para arrancar o anel do olho é que foram os trabalhos.


A velha tirou-o com um espéculo, e o diabo com a dor e zangado com as pendedelas, saiu pela porta fora. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ela chamou o pássaro: "Menino, menino, menino." Foi dali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela terra do rei que tinha perdido o anel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar debaixo da laje. Depois passou pela corte do rei que tinha a filha doente, disse onde estava o sapo-sapão. A princesa melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria.


– Quero que Vossa Majestade me dê o seu poder por oito dias.


O rei mandou deitar um pregão para ele governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir falar à sua presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora. O rapaz disse:


– Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora.


– Oh senhor, não me demorei por minha vontade.


– Pois sim. Mas porque não soube em tempo desculpar aquele pobre sargento que pôs fora de sua casa?


O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anéis do Diabo, e nesse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha metido um pé no Inferno.


 


O SAL E A ÁGUA



Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:


– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.


Respondeu a do meio:


– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.


A mais moça respondeu:


– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.


O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.


Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:


– É porque a comida não tem sal.


O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.







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